terça-feira, 18 de agosto de 2015

Augusto dos Anjos e a poética científica









Augusto dos Anjos e a poética científica

Os principais defensores e teorizadores da poesia científica no Brasil – os já citados Rocha Lima, Sílvio Romero e Martins Júnior – participaram, de alguma forma, da Faculdade de Direito do Recife, centro da Escola do Recife. Como Augusto dos Anjos aí estudou de1903 a 1907, temos como certo seu contato com a ideologia positivista e com a poética científica, o que nos sugere a possibilidade de o poeta ter adotado tal estética de forma programática.

O primeiro autor a verificar a ligação da poesia de Augusto dos Anjos com a poética científica foi Santos Neto, seu companheiro de estudos na Faculdade de Direito de Recife e para o qual Augusto dos Anjos dedicou um dos Poemas Esquecidos (Idealizações) e o Poema Negro, do Eu. Ambos moraram na mesma pensão, em Recife, e tiveram boas relações, pois Augusto dos Anjos refere-se ao colega, numa carta à mãe, como: “meu companheiro de labores intelectuais e dedicado amigo” (ANJOS, 1994, p. 695). Em Perfis do Norte (1913), Santos Neto tratou da obra de Augusto dos Anjos, afirmando que esse, inspirado pelas “grandes idéias filosóficas”, foi um adepto da poesia científica, mas sem fazer didatismos (apud MAGALHÃES JR., 1977, p.192).

Antonio Candido, em Formação da literatura brasileira (1975) afirmou que Augusto dos Anjos foi um “rastilho da explosão” daquela estética que havia estourado na geração de 1870: a dos poetas científicos. Candido considera-os modernos nas idéias – naturalistas, evolucionistas, republicanas, socialistas, anti-espiritualistas e anti-românticas – mas românticos condoreiros em suas realizações poéticas, em que predominava a oratória humanitária ou revolucionária. Augusto dos Anjos foi um rastilho porque sua obra foi produzida mais de 30 anos depois do surgimento da poesia científica.

Ledo Ivo, em As diatomáceas da lagoa (1961), afirmou que a atitude de Augusto dos Anjos apoiou-se nos conselhos, dados por Sílvio Romero, de integrar a poesia à ciência; portanto, ele pertenceria à estirpe dos poetas científicos, ainda que tenha sido, segundo o autor, o único dessa espécie a ter sobrevivido. Ledo Ivo, refletindo sobre a permanência da poesia de Augusto dos Anjos mesmo após a derrubada dos sistemas filosóficos em que ela se baseou, concluiu que essa filosofia participaria, “da própria contextura da obra” (IVO, 1973, p. 328): Augusto dos Anjos teria apresentado em seus versos uma visão particular, apesar de fundamentada naquelas idéias filosóficas que, transpostas para a esfera do poético, puderam sobreviver, pois adquiriram uma nova função.

José Escobar Faria, em A poesia científica de Augusto dos Anjos (1956), ao discutir as idéias científicas presentes no Eu, relacionou a obra de Augusto dos Anjos a “uma possível poesia científica” (FARIA, 1994, p.146). Para Antônio Houaiss (1964), a inclusão de Augusto dos Anjos na categoria dos poetas cientificistas e filosofantes seria válida. Segundo Delmo Montenegro (2004), o Eu, mesmo tendo sido publicado quase 30 anos depois do manifesto de Martins Júnior, “representou a realização plena do ideal literário do autor de Visões de Hoje [Martins Júnior]” (MONTENEGRO, 2004, ). Fausto Cunha, em Augusto dos Anjos salvo pelo povo (1963), conferiu ao poeta “uma atitude francamente naturalista, marcada pelo ‘realismo científico’” (CUNHA, 1994, p.168). Agripino Grieco, em Um livro imortal (1926), afirmou ser Augusto dos Anjos um “epígono retardado da Escola do Recife” (GRIECO, 1994, p. 82). Ferreira Gullar aludiu ao contato do poeta com o “espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto” (GULLAR, 1978, p. 15). Jamil Almansur Haddad assegurou que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (apud FERNANDES, 2004, ). Portanto, de acordo com a tradição crítica, a obra de Augusto dos Anjos sofreu, efetivamente, influência da poesia científica. Outro dado que aponta para a relação de Augusto dos Anjos com a poética científica é o seu envolvimento na polêmica estética promovida por Farias Brito e sua poética idealista, que se opunha à poética científica. Em 1914, mesmo ano em que Farias Brito lançou o livro O mundo interior, Augusto dos Anjos publicou o seguinte soneto, dedicando-o, ironicamente, a esse filósofo partidário da poética idealista e adversário da científica.

Natureza Íntima
Ao filósofo Farias Brito

Cansada de observar-se na corrente
Que os acontecimentos refletia,
Reconcentrando-se em si mesma, um dia,
A Natureza olhou-se interiormente!

Baldada introspecção! Noumenalmente
O que Ela, em realidade, ainda sentia
Era a mesma imortal monotonia
De sua face externa indiferente!

E a Natureza disse com desgosto:
“Terei somente, porventura, rosto?!
“Serei apenas mera crusta espessa?!

“Pois é possível que Eu, causa do Mundo,”
“Quanto mais em mim mesma me aprofundo,”
“Menos interiormente me conheça?”
(Outras Poesias. In: ANJOS, 1994, p. 317)

Nesse soneto, o poeta questiona a possibilidade de se investigar a natureza – examinada pelo positivismo de forma empírica, concreta, fenomênica – em sua essência, como quer o idealismo. Essa investigação pressupõe que a natureza possua uma vida interior, espiritual e independente do mundo externo, isto é, que além do fenômeno natural exista uma essência, um nôumeno, um objeto do conhecimento intelectual puro, que seria a coisa em si. Utilizando de ironia (baldada introspecção!), o poeta sugere a inutilidade dessa tentativa metafísica e espiritualista de conhecimento: a Natureza (transformada em entidade) volta-se para a investigação de seu interior, mas inutilmente, porque nessa dimensão ela não encontra o nôumeno, mas a mesma imortal monotonia / De sua face externa indiferente, descobrindo no hipotético mundo interior natural o mesmo que o mundo exterior apresenta. Em outras palavras, a Natureza averigua a inexistência dessa dimensão interior independente – isso corresponde a uma refutação da poesia introspectiva defendida por Farias Brito. Augusto dos Anjos sugere que esse tipo de investigação não apenas conduz a conhecimentos falsos, como também dificulta a aquisição de conhecimentos reais e prováveis – positivos – baseados nos fenômenos cognoscíveis: quanto mais a natureza procura compreender esse “mundo interior” (quanto mais em mim mesma me aprofundo), menos conhecimento ela adquire (menos interiormente me conheça). Não há um mundo interior a ser descoberto, mas apenas o mundo factual. Esse poema de Augusto dos Anjos reflete uma disputa filosófica importante, no fim do século XIX, entre a filosofia positivista e a teologia (ciência do sobrenatural), o espiritualismo e a metafísica. O eu-lírico opta pelo positivismo e recusa os outros sistemas como formas de conhecimento, porque esses recorrem a causas ou princípios não acessíveis ao método da ciência, inscrevendo sua poesia dentro da poética científica.

O poema Natureza Íntima constitui uma crítica à perspectiva idealista – que defende possuir a realidade um caráter espiritual e que, no sentido gnosiológico, reduz o objeto de conhecimento à sua representação ou idéia. É também uma defesa do método positivista, científico, objetivo e descritivo, que propõe o exame dos fatos e a descoberta de suas relações constantes, expressando-as na forma de leis que permitem prever os fatos futuros. O soneto representa uma concordância com a poética científica baseada na filosofia positivista.

Além dessa evidência poética, que nos indica a influência da poética científica na obra de Augusto dos Anjos, algumas informações biográficas também apontam para o fato de que o poeta teria, realmente, estabelecido contato com essa poesia. Augusto dos Anjos possuía um tio paterno chamado Adolfo Generino Rodrigues dos Anjos que, após uma briga familiar, mudou seu nome para Generino dos Santos e se fixou no Rio de Janeiro, perdendo o contato com sua família. Esse tio foi um praticante ortodoxo da doutrina de Comte e teria produzido poesia científica; sua produção intelectual foi reunida em uma publicação póstuma, cujo título geral é Humaníadas. Augusto dos Anjos, quando se mudou para o Rio de Janeiro em fins de 1910, pôde conhecer e manter contato com esse tio. Sobre o tio, Augusto dos Anjos afirma em carta à mãe, em 21 de setembro de 1910: “quanto ao Generino com grande espanto meu, abraçou-me estreitamente, [...] dizendo ter sumo prazer em abraçar o Augusto, a quem já conhecia não só como sobrinho, mas por uma revista de Minas Gerais que me tecera elogios abundantes” (ANJOS, 1994, p. 710). Após esse primeiro contato, tio e sobrinho estabeleceram relações tão amistosas que Generino chegou inclusive a compor um poema em homenagem à filha de Augusto dos Anjos. Em outra carta à mãe, em 16 de julho de 1911, Augusto dos Anjos diz: “o Generino que é grande amigo meu e de Ester, está sempre conosco, revelando-se assaz interessado em relação aos meus negócios particulares” (ANJOS, 1994, p. 724). Depois da publicação do Eu,Augusto dos Anjos afirmou, em carta à mãe de 27 de junho de 1912, que “o Generino entusiasmou-se com os meus versos e escreveu-me uma longa carta” (ANJOS, 1994, p. 737). Com todo esse contato com o tio praticante de poesia científica, abre-se a possibilidade de que esse possa ter influenciado, de alguma forma, com suas idéias filosóficas e estéticas, a produção poética de Augusto dos Anjos.

Raimundo Magalhães Jr. ressaltou que a estada de Augusto dos Anjos na Faculdade de Recife influenciou de fato a sua poesia: “a convivência, com professores e alunos, num centro cultural fervilhante de idéias, causaria poderoso impacto em sua [de Augusto dos Anjos] inteligência moça, dando nova feição à sua poesia” (MAGALHÃES JR., 1977, p. 80). Em 1904, a morte de Martins Júnior abalou os estudantes e suas idéias acabaram ganhando mais destaque: “todo o barulho em torno de Martins Júnior (...) deve ter levado Augusto dos Anjos a dar especial atenção a seus versos e às teorias do poeta desaparecido” (MAGALHÃES JR., 1977, p.109). Quando Augusto dos Anjos retorna à Faculdade de Recife para prestar os exames do segundo ano do curso, em 1905, ele encontra o ambiente da Faculdade ainda abalado com a morte de Martins Júnior. Foi então que, sob a influência do pensamento de Martins Júnior, Augusto dos Anjos transformou sua poesia, adotando o cientificismo – “a segunda passagem de Augusto dos Anjos por Pernambuco equivale a um divisor das águas, em sua poesia, ainda que a transição tenha sido feita aos poucos, como era natural” (MAGALHÃES JR., 1977, p. 111). O fato é que pouquíssimas produções anteriores a 1905 foram escolhidas por Augusto dos Anjos para comparecer ao Eu. Dos 58 poemas, apenas 15 são anteriores a ou escritos em 1905: de 1905 são os poemas: Solitário, Uma Noite no Cairo, Vozes de um Túmulo, os sonetos dedicados ao pai, A Árvore da Serra, Mater, Insônia e Barcarola; de 1904, os poemas: Vandalismo, A Ilha de Cipango eEterna Mágoa; de 1902 é o poema Vencedor; e o mais antigo, de 1901, Versos Íntimos.É por isso que escolhemos para o corpus poemas posteriores a 1905.

É importante considerar que, na opinião de vários críticos, os ditos poetas científicos não teriam sido bem sucedidos nas tentativas de pôr em versos suas idéias estéticas. Segundo Ivan Lins, as idéias de Martins Júnior constituíram, na prática, um “malogro poético” (LINS, 1967, p. 463). Para Ventura, a poesia de Romero e Martins Júnior não atingiu os objetivos por eles propostos, limitando-se à “afirmação didática dos novos credos” (VENTURA, 1991, p. 96). Merquior (1979) afirmou que Sílvio Romero escreveu em estilo hugoano, não obstante suas intenções científicas. Péricles Ramos também disse, sobre o Cantos do fim do século, de Romero, que embora a intenção do livro fosse anti-romântica, sua “expressão permaneceu vaga, nebulosa e tingida de hugoanismo, continuando, pois, com aparência romântica” (RAMOS, 1989, ). Martins Júnior, ao comentar a mesma obra de Romero, afirmou que o prefácio do livro era bastante importante, por conter “uma magnífica teoria artística” (MARTINS JR., 1883, p. 25), mas que o autor, na composição dos poemas, não a teria utilizado. O próprio Romero confessou, sobre seus versos, que não acreditava haver perfeitamente posto em prática suas idéias a respeito da nova poesia mas que, mesmo assim, teve-as em vista quando escreveu seus poemas. Veríssimo observou que Romero pôs em versos noções científicas, pensamentos filosóficos e também conceitos históricos e opiniões sociais, porém “com maior ardor que sucesso” (VERÍSSIMO, 1963, p. 56). Além de criticar Romero, Veríssimo, em sua avaliação da poesia científica em geral, afirmou de seus praticantes que nenhum era “credor de estimação”, produzindo apenas “manifestações minguadas e somenos” e “frutos pecos ou gorados ainda em flor”; os ditos poetas científicos teriam se limitado a versificar noções, princípios e conhecimentos científicos, incorrendo no didatismo. Por fim, ele julgou ter sido a poesia científica uma “coisa híbrida e desarrazoada”, que “de poesia só teve o exprimir-se em versos, geralmente ruins” e, sendo em muitos aspectos ainda “um remanescente do condoreirismo” (VERÍSSIMO, 1963, p. 56).

Augusto dos Anjos teria sido então um dos únicos poetas científicos a ter sobrevivido e adquirido renome. Verificaremos, em seguida, como a poética científica se realizou em Augusto dos Anjos, em comparação com outros poetas científicos.

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Márcia Peters Sabino: “AUGUSTO DOS ANJOS E A POESIA CIENTÍFICA” (Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Letras, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Juiz de Fora, área de concentração Teoria da Literatura, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Estudos Literários. Orientadora: Profa. Dra. Teresinha Vânia Zimbrão da Silva). Juiz de Fora, 2006.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.
Disponível digitalmente no site: Domínio Público


Retirado dosite:  http://www.ibamendes.com/2012/01/augusto-dos-anjos-e-poetica-cientifica.html

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ORRIS SOARES: ELOGIO DE AUGUSTO DOS ANJOS



Depois de mais um gole, Orris bate com o copo na mesa e diz, um tanto desconsolado, ora um grupo de frases, ora um suspiro, ora um soluço:

- Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas vistas transmudavam-se rapidamente, crescendo, interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau, sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. No omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro.
- Essa fisionomia, por onde erravam tons de catástrofe, traía-lhe a psique. Realmente lhe era a alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam as violetas da mágoa. (...) 
- Por muito que de mim procure na memória, não alcanço data mais velha à do ano de 1900, para o começo de minhas relações pessoais com Augusto dos Anjos. Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado, todo encolhido nas asas com medo da chuva.
- Descia do Pau d’Arco, sombrio Engenho de açúcar plantado à aba do rio Una, vindo prestar exame no Liceu. O aspecto fisionômico então alertado, e o desembaraço nas respostas anunciavam a qualidade do estudante, cuja fama de preparo correu por todos os recantos do estabelecimento, ganhando foros de cidade. Cada ato prestado valia por afirmação de talento, e de peito aberto louvores se erguiam ao melancólico pai, único professor que tivera no curso de humanidades.
- Não soube resistir ao desejo de travar relações com o poeta. Fui impiedosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio.
- De certa feita bati-lhe às portas, na rua Nova, onde costumava hospedar-se. Peguei-o a passear, gesticulando e monologando, de canto a canto da sala. Laborava, e tão enterrado nas cogitações, que só minutos após deu acordo de minha presença. Foi-lhe sempre este o processo de criação. Toda arquitetura e pintura dos versos as fazia mentalmente, só as transmitindo ao papel quando estavam integrais, e não raro começava os sonetos pelo último terceto.
- Sem nada pedir-lhe, recitou-me. Recorda-me, foram uns versos sobre o carnaval, que o batuque nas ruas anunciava próximo.
- Declamando, sua voz ganhava timbre especial, tornava-se metálica, tinindo e retinindo as sílabas. Havia mesmo transfiguração na sua pessoa. Ninguém diria melhor, quase sem gesto. A voz era tudo: possuía paixão, ternura, complacência, enternecimento, poder descritivo, movimento, cor, forma.
- Dando de mim, estava pasmado, colhido pelo assombro inesperado de sua lira que ora se retraía, ora se arqueava, ora se distendia, como um dorso de animal felino.
- Mais tarde, ouvindo no violoncelo um concerto de Dvorak, recebi a impressão igual, de surpresa e domínio, à do meu primeiro encontro com os versos de Augusto.
- A que escola se filiou? – a nenhuma.
_________________

(1) Fonte: Augusto dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
(2) Apud José Lins do Rego, Augusto dos Anjos e o engenho Pau d’Arco. 
(3) Apud José Lins do Rego, idem.


terça-feira, 3 de julho de 2012


Se Eu
Se eu me apaixonar por você
Você prometeria ser verdadeira
E me ajudar a entender?

Porque eu já me apaixonei antes
E eu descobri que o amor era mais
que só mãos dadas

Se eu der meu coração
pra você,
Eu tenho que ter certeza
Desde o inicio
De que você
me amaria mais que ela

Se eu confiar em você,
Oh, por favor
Não corra e se esconda
Se eu te amar também,
Oh, por favor
Não fira meu orgulho, como ela

Porque eu não aguentaria esta dor
E eu
ficaria triste se nosso novo amor
Fosse em vão

Então eu espero que você veja
Que eu
Amaria te amar
E que ela
Vai chorar
Quando aprender que nós somos dois

Porque eu não aguentaria esta dor
E eu
ficaria triste se nosso novo amor
Fosse em vão

Então eu espero que você veja
Que eu
Amaria te amar
E que ela
Vai chorar
Quando aprender que nós somos dois
Se eu me apaixonar por você

domingo, 4 de setembro de 2011

Augusto por Drummond


Augusto por DrummondE-mail




"Li o "Eu" na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia. Zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do "Eu" foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira."

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
texto feito pelo poeta em 1984, centenário de Augusto dos Anjos, a pedido da Biblioteca Nacional; será publicado pela primeira vez em uma edição de "Eu" no volume preparado pela Bertrand Brasil

sábado, 3 de setembro de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A “DISSSONÂNCIA” NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS



SARA RIBEIRO DOS SANTOS [1]

RESUMO
Este trabalho discute a poética de Augusto dos anjos ressaltando seus aspectos heterogênicos (forma/conteúdo/estética periodologica) como suporte para se averiguar uma certa “Dissonância poética”, sob auxilio da ótica vária da critica. Comumente ao se falar em dissonância, logo imagina-se tratar de desarmonia musical, desacordo de sons ou (desafinação, desentoação, discordância, divergência), no caso da poesia, será o resultado da confluência de várias estéticas literárias em uma única obra, – “EU” único livro do poeta. Justifica-se pelo fato da obra não possuir uma unânime classificação estética ou periodologica. Pois sabe-se que a literatura situa-se cogente no devir temporal e no transcurso histórico. É certo que os historiadores e os estudiosos do fenômeno literário, movidos por autênticas exigências críticas, ou, algumas vezes, por razões meramente didáticas, tenham procurado estabelecer determinadas divisões históricas e estas divisões tenham se cristalizado no domínio vastíssimo da literatura. Para melhor discussão, faremos ponte com os críticos Ferreira Gullar, Lúcia Helena, Anatol Rosenfeld, dentre outros e com alguns poetas e pensadores que influenciaram direta ou indiretamente a poética de Augusto dos Anjos, como: Charles Baudelaire, Gottfried Benn, Schopenhauer, Darwin, Spencer, Haeckel, Byron, Cruz e Souza. Na tentativa de se comprovar que o resultado das confluências estéticas se dão por uma “Dissonância poética”.


PALAVRAS-CHAVES: AUGUSTO DOS ANJOS. DISSONÃNCIA POETICA. PERIODIZAÇÃO. CRÍTICA.


[1] Sara Ribeiro dos Santos, Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Artigo apresentado na III Semana de Letras e o I Encontro de Literatura Baiana no Campus VI da UNEB dia 28 de julho de 2011. 


OBS: Logo disponibilizarei o link para o artigo completo, estou aguardando a publicação.
Quem estiver enteressado entre em contato pelo e-mail do blog.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Poesia psicografada (Augusto dos Anjos)





Eterno peregrino que em caminhos de espinhos andastes

Dor, sonhos,ilusões encontrastes
Descansa teu corpo cansado nas pedras do caminho

Na beira da estrada põe-te a pensar
Nas brumas suaves da manhã ergue teus braços ao infinito 
Uma luz brilhante ti levará, ao encontro de
 um amigo que nunca deixou de te amar 
"Jesus".

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

INTIMATE VERSES



No one attended, as you 've seen, your last
Chimera's awe-inspiring funeral.
Ingratitude — that panther — has been all
Your company, but it has been steadfast!

Get used to mud: soon it will hold you fast!
Man living among wild beasts on this foul
And sordid earth cannot resist the call
To turn himself as well into a beast.
 
Here, take a match. Now light your cigarette!
A kiss is but the eve of being spat,
A stroking hand, my friend, may stone you too.
 
If your great wound still saddens anyone,
Cast at that vile hand stroking you a stone,
Spit straight into the mouth that kisses you!

(Augusto dos Anjos) 

Idealismo


Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra, De Messalina e de Sardanapalo?
Pois é mister que, para o amor sagrado, O mundo fique imaterializado — Alavanca desviada do seu fulcro —
E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira, Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


(Augusto dos Anjos)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ricordanza della mia gioventú

CASA DA AMA DE LEITE GUILHERMINA
 
A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!


Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
"- Não, não fora ela -" E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.
 
Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...


Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!
                             

                                                                (Augusto dos Anjos)
 

quarta-feira, 30 de junho de 2010

APRESENTAÇÃO - ENEL - JOÃO PESSOA - UFPB



Leitores e pesquisadores da Obra do  Poeta Paraíbano Augusto dos Anjos, deixo aqui o convite à assistirem as apresentações de trabalhos no Encontro Nacional dos Estudantes de Letras (ENEL), que ocorrerá na UFPB em João Pessoa na Paraíba, do dia 10 a 17 de julho.
  Eu apresentarei um Banner com o tema do meu "Pequeno Ensaio" - A TENTATIVA DE PERIODIZAÇÃO DA OBRA DE AUGUSTO DOS ANJOS  - , também haverá outras apresentações sobre a obra do nosso querido Poeta.
  Quem quiser ter acesso a meu ensaio completo entre em contato comigo pelo e-mail: sarahatitude@yahoo.com.br

Por: Sarah Ribeiro

terça-feira, 8 de junho de 2010

Pequeno Ensaio ( trecho)

A TENTATIVA DE PERIODIZAÇÃO DA OBRA DE AUGUSTO DOS ANJOS
Sara Ribeiro dos Santos¹


A proposição deste trabalho é discutir e dialogar com alguns críticos o processo de inserção da obra “Eu”, único livro do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) em certos períodos literários. Trata-se, portanto de uma análise sobre a controversa classificação do poeta, que oscila entre o Romantismo ao Modernismo.
Sabemos quão problemática pode ser a conciliação entre critérios de tempo e critérios estéticos, e a resultante interpenetração que às vezes passeia nas zonas fronteiriças dos períodos literários. Para melhor constatação fica mais patente o dialogo direto com tais críticos: Alfredo Bosi, Afrânio Coutinho, Antonio Cândido, Massaud Moisés e Anatol Rosenfeld.
Portanto, seja qual for a abordagem ou período literário que for usado como base de análise da obra, ele fornecerá respostas parciais. Uma vez que, a singularidade deste poeta consiste no fato dele instaurar uma nova linguagem, cuja capacidade de mimesis ou de fazer fluir o processo mimético reside na novidade estética e imagética.

¹Graduanda do VII Semestre do curso de Letras Vernáculas da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus XX Brumado -  BA.

REFERÊNCIAS

ANJOS, Augusto dos. Eu. In: BUENO, Alexei. (Ed.) Augusto dos Anjos: obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.

_____________. Outras poesias. In: BUENO, Alexei. (Ed.) Augusto dos Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
_____________. Poemas esquecidos. In: BUENO, Alexei. (Ed.) Augusto dos Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
 ALMEIDA, Horácio de. Augusto dos Anjos: razões de sua angústia. Rio de Janeiro: Ouvidor, 1962.
 BANDEIRA, Manuel. Augusto dos Anjos. In: BUENO, Alexei. (Ed.) Augusto dos Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
 BARBOSA, Jair Lopes. Schopenhauer: a decifração do enigma do mundo. São Paulo: Moderna, 1997.
 BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.
 BUENO, Alexei. Augusto dos Anjos: origem de uma poética. In: BUENO, Alexei. (Ed.)
Augusto dos Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
FREYRE, Gilberto. Nota sobre Augusto dos Anjos. In: BUENO, Alexei. (Ed.) Augusto dos
Anjos: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
 GULLAR, Ferreira. Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina. 2ª ed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1978.
 HOUAISS, Antonio. Augusto dos anjos: poesia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960.
HELENA, Lucia. A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.
 MOISÉS, Massaud. O Simbolismo. São Paulo: Cultrix, 1966.
 ROSENFELD, Anatol. “A costela de prata de Augusto dos Anjos”. In: COUTINHO, Afrânio e BRAYNER, Sônia. Augusto dos Anjos - textos críticos. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973, pp. 314-319.
 OBS: quem tiver interesse em ler o ensaio completo entre em contato comigo pelo e-mail : sarahatitude@yahoo.com.br

terça-feira, 1 de junho de 2010

Comunidade no orkut sobre o ENEL e Memorial de Augusto dos Anjos



COMUNIDADE OFICIAL DO ENEL 2010 NO ORKUT

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=92606289


SITE DO ENEL 2010

http://enel2010.com.br/

SITE DO MEMORIAL DE AUGUSTO DOS ANJOS

http://www.memorialaugustodosanjos.com/

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ENEL 2010 - Paraíba - João Pessoa - UFPB

 ENCONTRO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE LETRAS
LÍNGUA, MEMÓRIA E CULTURA
AS RAÍZES NO PRESENTE 

        
 Paraíba, berço de Augusto dos Anjos

          Pretendendo refletir acerca da nossa formação profissional adquirida na academia, e atrelada a influência do aprendizado que obtemos nos demais espaços de convivência social, pretendemos esse ano discutir como o educador flutua em meio ao passado, presente e futuro.
        A temática nos leva a discussão de como somos influenciados todo o tempo em nossos costumes e atos. É inegável que nossa cultura, nossa língua, carregam a memória de nossos antepassados. Essa mistura foi essencial para a formação de nosso folclore, da nossa tradição.
        Entendemos que é imprescindível apresentar nossas manifestações artísticas de diversas formas. Porém, não podemos esquecer de apresentar aos nossos encontristas a nossa historia política, memória de nossas revoluções, das mulheres e homens fortes que participaram ativamente da formação desse país, sem esquecer das nossas belezas naturais e da hospitalidade típica do paraibano.
       O Encontro se dará em João Pessoa, trazendo como tema: “Língua, Memória e Cultura: as Raízes do Presente”.
        Primeiramente devemos nos questionar o porquê da realização desse encontro na Paraíba. Das muitas respostas podemos destacar a nossa necessidade de movimentar os estudantes de Letras da nossa universidade para seus questionamentos perante o curso e sua inserção no mercado de trabalho. Nosso desejo de apresentar aos nossos encontristas nossa estrutura e nosso celeiro acadêmico, professores e pesquisadores reconhecidos por seus trabalhos que há muito já ultrapassam as barreiras da Paraíba, nos igualando em qualidade a outras grandes universidades do país. Outro dado importante é o fato que até os dias de hoje não encontramos registros da organização de um Encontro Nacional de Estudantes de Letras em nossa universidade, o que nos inspirou a sermos pioneiros nessa empreitada.

 Fonte:http://enel2010.com.br/

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Augusto dos Anjos VIVE!! * 126 ANOS

 

 DIA 20 DE ABRIL DE 2010, AUGUSTO DOS ANJOS ESTARIA COMPLETANDO 126 ANOS.

  Augusto dos Anjos (1884-1914)

 

        Poeta brasileiro. Famoso pela originalidade temática e vocabular.Publicou uma única obra - Eu - (1912). 
    Augusto dos Anjos recorreu a uma infinidade de termos científicos, biológicos e médicos ao escrever seus versos de excelente fatura, nos quais expressa por princípio um pessimismo atroz.
     Considerado o mais original dos poetas brasileiros entre Cruz e Sousa e os modernistas, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco PB em 20 de abril de 1884. Aprendeu com o pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. Formado em direito em Recife (1906), casou-se logo depois. Contudo, não advogou; vivia de ensinar português, primeiro em seu estado e a seguir no Rio de Janeiro RJ, para onde se mudou em 1910. Lecionou também geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor.
   Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, Eu, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
    Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte").
   A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
   A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do Eu -- desde 1919 constantemente reeditado como Eu e outras poesias -- um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma.
    Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914. 
Fonte: www.perci.com.br
 

terça-feira, 6 de abril de 2010

O poeta do hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

(Augusto dos Anjos)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Pscicologia de um vencido



Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.


Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.


Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,


Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

                                                    ( Augusto dos Anjos)