sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ORRIS SOARES: ELOGIO DE AUGUSTO DOS ANJOS



Depois de mais um gole, Orris bate com o copo na mesa e diz, um tanto desconsolado, ora um grupo de frases, ora um suspiro, ora um soluço:

- Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e nos lábios uma crispação de demônio torturado. Nos momentos de investigações suas vistas transmudavam-se rapidamente, crescendo, interrogando, teimando. E quando as narinas se lhe dilatavam? Parecia-me ver o violento acordar do anjo bom, indignado da vitória do anjo mau, sempre de si contente na fecunda terra de Jeová. Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula, arqueada. No omoplata, o corpo estreito quebrava-se numa curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabecas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, parecia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro.
- Essa fisionomia, por onde erravam tons de catástrofe, traía-lhe a psique. Realmente lhe era a alma uma água profunda, onde, luminosas, se refletiam as violetas da mágoa. (...) 
- Por muito que de mim procure na memória, não alcanço data mais velha à do ano de 1900, para o começo de minhas relações pessoais com Augusto dos Anjos. Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado, todo encolhido nas asas com medo da chuva.
- Descia do Pau d’Arco, sombrio Engenho de açúcar plantado à aba do rio Una, vindo prestar exame no Liceu. O aspecto fisionômico então alertado, e o desembaraço nas respostas anunciavam a qualidade do estudante, cuja fama de preparo correu por todos os recantos do estabelecimento, ganhando foros de cidade. Cada ato prestado valia por afirmação de talento, e de peito aberto louvores se erguiam ao melancólico pai, único professor que tivera no curso de humanidades.
- Não soube resistir ao desejo de travar relações com o poeta. Fui impiedosamente atraído, como para um sítio encantado onde a vista se alerta por encontrar movimento. E de tal forma nos acamaradamos, que, dias depois, lhe devia o exame de latim, desembaraçando-me de complicada tradução, numa ode de Horácio.
- De certa feita bati-lhe às portas, na rua Nova, onde costumava hospedar-se. Peguei-o a passear, gesticulando e monologando, de canto a canto da sala. Laborava, e tão enterrado nas cogitações, que só minutos após deu acordo de minha presença. Foi-lhe sempre este o processo de criação. Toda arquitetura e pintura dos versos as fazia mentalmente, só as transmitindo ao papel quando estavam integrais, e não raro começava os sonetos pelo último terceto.
- Sem nada pedir-lhe, recitou-me. Recorda-me, foram uns versos sobre o carnaval, que o batuque nas ruas anunciava próximo.
- Declamando, sua voz ganhava timbre especial, tornava-se metálica, tinindo e retinindo as sílabas. Havia mesmo transfiguração na sua pessoa. Ninguém diria melhor, quase sem gesto. A voz era tudo: possuía paixão, ternura, complacência, enternecimento, poder descritivo, movimento, cor, forma.
- Dando de mim, estava pasmado, colhido pelo assombro inesperado de sua lira que ora se retraía, ora se arqueava, ora se distendia, como um dorso de animal felino.
- Mais tarde, ouvindo no violoncelo um concerto de Dvorak, recebi a impressão igual, de surpresa e domínio, à do meu primeiro encontro com os versos de Augusto.
- A que escola se filiou? – a nenhuma.
_________________

(1) Fonte: Augusto dos Anjos – Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996
(2) Apud José Lins do Rego, Augusto dos Anjos e o engenho Pau d’Arco. 
(3) Apud José Lins do Rego, idem.


terça-feira, 3 de julho de 2012


Se Eu
Se eu me apaixonar por você
Você prometeria ser verdadeira
E me ajudar a entender?

Porque eu já me apaixonei antes
E eu descobri que o amor era mais
que só mãos dadas

Se eu der meu coração
pra você,
Eu tenho que ter certeza
Desde o inicio
De que você
me amaria mais que ela

Se eu confiar em você,
Oh, por favor
Não corra e se esconda
Se eu te amar também,
Oh, por favor
Não fira meu orgulho, como ela

Porque eu não aguentaria esta dor
E eu
ficaria triste se nosso novo amor
Fosse em vão

Então eu espero que você veja
Que eu
Amaria te amar
E que ela
Vai chorar
Quando aprender que nós somos dois

Porque eu não aguentaria esta dor
E eu
ficaria triste se nosso novo amor
Fosse em vão

Então eu espero que você veja
Que eu
Amaria te amar
E que ela
Vai chorar
Quando aprender que nós somos dois
Se eu me apaixonar por você

domingo, 4 de setembro de 2011

Augusto por Drummond


Augusto por DrummondE-mail




"Li o "Eu" na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia. Zooplasma, intracefálica... E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do "Eu" foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira."

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
texto feito pelo poeta em 1984, centenário de Augusto dos Anjos, a pedido da Biblioteca Nacional; será publicado pela primeira vez em uma edição de "Eu" no volume preparado pela Bertrand Brasil

sábado, 3 de setembro de 2011